Beirute: “Pensei: É a guerra. Estamos a ser bombardeados”

É a guerra. Estamos a ser bombardeados

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As explosões que devastaram a cidade de Beirute, na terça-feira, aconteceram num momento em que o Líbano atravessa um colapso financeiro, económico, social e sanitário. Será que a conhecida “resiliência libanesa” vai resistir a mais um golpe? A análise

e as descrições do fotojornalista português João Sousa que vive em Beirute.
Nesta entrevista, o fotojornalista português João Sousa descreve-nos as imagens que o têm marcado desde as explosões de terça-feira, garante que vai continuar em Beirute apesar das dificuldades e conta-nos o estado de espírito dos libaneses ainda em choque. Uma conversa em que ele começa por recordar o momento em que se perguntou se estava em guerra.

“Eu estava sentado na varanda do meu apartamento. Houve uma explosão inicial e eu pensei que não era um trovão nem fogo-de-artifício. O que será isto? E eu pensei: Será que estamos a ser bombardeados? E parecia um bocado ao longe. De repente, oiço um som brutal a aproximar-se gradualmente e foi nessa altura que apanhámos com a segunda explosão, que foi aquela explosão que mexeu com tudo, que chocalhou os edifícios à nossa volta, o nosso edifício também. Estilhaços, janelas partidas, portas partidas, tudo partido e foi terrível. Começámos a ouvir berros, gritos de mulheres em pânico e em choque e foi nessa altura que eu pensei: É a guerra. Estamos a ser bombardeados”, relembra.

Das imagens que mais o marcaram, o fotojornalista destaca a destruição do supermercado ao pé de casa onde costuma fazer compras, a solidariedade dos comerciantes que perderam tudo mas distribuíam garrafas de água e o rosto de uma idosa agarrada ao crucifixo enquanto os paramédicos a convenciam a entrar na ambulância.

Como é que é possível que 2750 toneladas de nitrato de amónio estivessem armazenadas há seis anos, sem condições de segurança, no porto, em plena área residencial? “Tudo é possível no Líbano, nomeadamente coisas que envolvam corrupção, negligência. O Líbano é um país altamente negligente, apesar dos arranha-céus, dos carros de luxo, hotéis de luxo, restaurantes de luxo, roupa de luxo, etc, etc. É um país ultra corrupto e não me admira nada que acidentalmente, por negligência, tenham deixado ali tanta quantidade de nitrato”, responde.

João Sousa não está, para já, preocupado com a eventual contaminação do ar, apesar de o nitrato de amónio ser tóxico e de o fumo laranja libertado pelas explosões se assemelhar a dióxido de azoto, algo produzido pela decomposição de nitrato de amónio e que poderia ser mortal se inalado.

“A nuvem desapareceu e não houve informação nenhuma por parte do governo a dizer que era perigoso ficar em Beirute. A nuvem desapareceu, não se sente uma qualidade diferente no ar. Ontem, havia bastante fumo, estava mais localizado na parte do porto. Eu diria que não houve grandes alterações atmosféricas decorrentes da explosão”, afirma. O fotojornalista diz que vai ficar em Beirute “até ser absolutamente insustentável”.

As explosões desta terça-feira são mais um profundo golpe num país que, depois de 15 anos e meio de guerra civil, de duas guerras com Israel, de ataques e assassínios, está, hoje, à beira do colapso económico, com a moeda em constante desvalorização, uma inflação galopante, desemprego, falta de estruturas de protecção social em plena pandemia de covid-19 e um movimento de contestação ao Governo. Ainda assim, uma morna contestação, considera o repórter.

Sobre o futuro do Líbano, apesar de ser “um país com pessoas extremamente educadas, muito bem instruídas e bem viajadas", João Sousa diz que o país se deixou cair “nas mãos de uma cáfila corrupta e a classe política que governa o país acaba por ser quem dita o que acontece e as pessoas seguem, sem contestar”.

“As pessoas vão aturando as coisas, vão fazendo aquilo que os políticos dizem que querem que elas façam e, no final, chamam a isto a resiliência libanesa. É um país que se habituou a estar nas mãos da máfia e habituou-se a criar soluções para problemas que foram criados pela própria máfia que eles financiam”, comenta.

O primeiro-ministro libanês, Hassan Diab, prometeu uma investigação e garantiu que os responsáveis não ficarão impunes. Porém, o governo já estava fragilizado e pode não conseguir segurar-se depois de 4 de Agosto.

“Este governo estará bastante debaixo de fogo por aquilo que aconteceu ontem, nomeadamente por haver muita gente que acredita que isto foi um ataque e não um acidente. Quando o primeiro-ministro diz que foi um acidente, as pessoas sentiram-se quase traídas. Os libaneses já estão predispostos a acreditar que isto foi um ataque independentemente de ser ou não. Isso ajudaria a ter alguém a quem eles possam apontar o dedo. Não há provas que isto tenha sido um ataque. Não há provas que isto tenha sido um acidente. Portanto, é inconclusivo. Os libaneses com quem eu tenho falado todos me dizem que foi um ataque, que foi Israel que quis neutralizar o armazenamento das armas do Hezbollah no porto”, conclui.

 


Fonte:da Redação e da rfi.fr
Reeditado para:Noticias do Stop 2020
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Fotografias:Getty Images/Reuters/EFE/AFP/Estadão

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